Marguerite & Roxton

 

 

 

 

                  

Rachel Blakel

Rachel Blakely é australiana e nasceu no dia 28 de julho de 1968, leonina!

                                   

 

 

Uma olhadela no espelho

O espelho nunca nega. O reflexo é preciso, quase matemático, e exceto por um ou outro efeito de luz, não esconde nada. Ao contrário, revela tudo.

Um rosto pálido, de traços delicados. Os olhos de um azul acinzentado enormes e profundos, com pestanas longas e negras. As sobrancelhas negras, finas e bem-traçadas, a boca cheia e sensual com dentes regulares como uma fileira de pérolas. Os cabelos, longos, negros, cacheados e sedosos, emolduram e completam a imagem forte da mulher. E um corpo esguio, desenhado para o pecado, capaz de despertar o desejo e a cobiça nos homens de todas as idades e classes sociais.

Isso era o que ela via no espelho. Era o que qualquer um que se aproximasse por trás dela também veria, refletido. Mas, o que havia por trás daqueles olhos? O que morava dentro da imagem refletida no espelho? Felizmente nenhum espelho poderia mostrar a receita de mulher que tinha composto aquele espécime único. Nenhum espelho despiria a máscara que ela afivela mentalmente sobre si mesma todos os dias.

Abandonada pelos pais. Adotada e abandonada pela família adotiva. Vivendo em colégios internos, cercada de freiras e de colegas que zombavam dela. Distante de qualquer demonstração de carinho e afeto. Dotada de uma inteligência dolorosamente sagaz e de uma perspicácia que só faziam com que percebesse mais claramente quem os outros eram e, principalmente, quem ela não era. Crescera e se transformara numa linda e jovem mulher, que já no primeiro casamento tivera qualquer ilusão de felicidade futura destruída como aquelas de felicidades passadas. Diante disso, restava enriquecer. Manter-se independente, enquanto mulher, na sociedade da época, dependia de dinheiro. Muito dinheiro. E poder. E era isso que ela conseguiria. E conseguiu, casando-se com os homens certos, que também morreram na hora certa. Deixando-a suficientemente rica. E mais que suficientemente sozinha. O envolvimento com a guerra, com a espionagem. A lealdade a um país que sequer tinha certeza de ser a sua pátria mãe. O perigo constantemente à espreita. E definindo a linha de tudo isso, o eterno e insaciável desejo de encontrar a si mesma.

Se o espelho pudesse eliminar, de um momento para outro, anos e anos de camadas de auto-preservação, a descoberta seria surpreendente. O que o espelho mostraria se houvesse um espelho capaz de mostrar qualidades e defeitos e não apenas aparências?

Uma mulher corajosa. Capaz de lutar com qualquer arma, e de não recuar diante de quaisquer desafios. Sejam espadas, armas brancas, revólveres, rifles, chicotes, lanças, machados ou com as próprias mãos.

Uma mulher inteligente. Capaz de encontrar as palavras certas em todas as línguas conhecidas no passado, presente e futuro. E capaz de jogar quaisquer jogos de sedução apropriados para vencer onde a força bruta for desfavorável. Hábil e sagaz para perceber quando usar seu belo rosto e belo corpo para seduzir homens-lagarto, gigantes, piratas, deuses e qualquer um que aparecer pela frente. Mais hábil ainda para enganar os seduzidos de forma a salvar sua vida e a vida de seus amigos.

Uma mulher batalhadora. Que tem motivos ocultos que eventualmente até ela mesma desconhece, segredos guardados a sete chaves que procura esconder de si mesma, mas que deixa muito claras as metas que quer atingir. E faz o que for preciso para atingir tais metas, pois sua experiência de vida a ensinou a jamais contar com alguém para protegê-la ou salvá-la.

Uma mulher leal. Capaz de todas as artimanhas para salvar seus amigos, mesmo quando faz os maiores esforços para disfarçar sua bondade diante desses mesmos amigos.

Uma mulher dedicada. Capaz de se dispor a cuidar de cada um deles quando há necessidade. De passar horas desconfortáveis a beira da cama de cada um dos amigos quando algum deles está doente ou ferido. E escondendo até de si mesma a angústia e o medo de eventualmente vir a perdê-los também, como já perdeu tantas pessoas em sua vida.

Uma mulher sensível. Capaz de compreender cada um dos membros da expedição sob uma ótica menos idealista e mais realista que qualquer dos outros. Para enxergar e entender as culpas do tão bondoso Summerlee, a humanidade oculta por sob o manto da ciência de Challenger, a inteligência criativa dormente no espírito inseguro de Malone, a esperança contida e frustrada aprisionada em Verônica, e o remorso e expiação de uma culpa por um crime inexistente de Roxton. Mas incapaz de enxergar e reconhecer, mas principalmente de admitir suas próprias qualidades enterradas constantemente sob toneladas de duras provações, abandono e perigo.

Uma mulher em busca de si mesma. Que não sabe quem é, seu nome, não sabe quem são seus pais, não sabe de onde veio. Que dança com o diabo na beira do abismo e se dispõe a pagar qualquer preço para se encontrar. Para ir além da imagem do espelho. Para descobrir quem realmente é. Mas que se esquece que mais importante do que um nome ou um passado é a mulher que ela se tornou.

Uma mulher que para todos os efeitos finge não ter consciência, quando essa mesma consciência não a deixa dormir, a afasta eventualmente dos outros em longas horas de vigília e luta interna, e cujas culpas e segredos a impedem de se dar ao direito de ter aquilo que realmente merece.

Uma mulher fatal. Cuja combinação de beleza interior e exterior encanta e atrai os que estão ao seu redor, fazendo-os permanecer orbitando próximo a ela enredados por uma trama de dúvida, mistério, curiosidade e amizade.

Uma mulher, enfim. De carne e osso, movida por desejos e paixões, caminhando o tempo todo sob a linha afiada da navalha entre ser alguém que todos simplesmente amam odiar ou ser alguém que todos odeiam amar, apesar ou por causa de tudo que ela é.

Mas o espelho não revela, o espelho esconde. Apenas revela e reflete a máscara, aquela que ela deseja mostrar, exibindo apenas aquilo que ela decidiu compartilhar. Todo o resto permanece guardado, oculto, protegido. Ela se mira mais uma vez no espelho. Sim. A máscara está perfeitamente ajustada. Para filtrar o que os outros verão. Para impedir que os outros tenham idéia do quanto ela sente por eles, do quanto ela é apegada a eles, do quanto eles se tornaram partes integrantes e indispensáveis da vida dela. Para não mostrar a eles o quanto eles são sua única família. Para permitir apenas que eles vejam o que ela se permitirá exibir.

O que ela não sabe é que os outros não a vêem através do espelho. E os olhos humanos, ah, esses sim são capazes de ir muito além da face fria do metal polido do espelho. Olhos humanos com o tempo aprendem a desafivelar a máscara sem que a própria dona da máscara o perceba. E aprendem a achar o caminho através mesmo dos meandros tortuosos de tantas decepções e segredos passados até o coração de uma certa mulher...

 

     

Ps: Este texto foi escrito por Cristina Zanani, mais conhecida com Cris, lindinha, Cris obrigada por me emprestar seu texto!

 

                         

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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